2 – Introdução da Inquisição em Portugal

1. Como nasceram os Cristãos Novos portugueses.

Não houve grandes perseguições aos Judeus em Portugal antes da expulsão geral ordenada pelo Rei D. Manuel em 1496. Sendo assim, não existiram conversões em massa e a comunidade hebraica preservou-se praticamente intacta até aquela data. Segundo Saraiva o problema dos Cristãos Novos surgiu depois. (SARAIVA, 1969, p. 27).

Os judeus na Península Ibérica sofreram uma das mais trágicas experiências históricas – a expulsão da Espanha em 1492 e conversão forçada em Portugal no ano de 1497. Assinado o Edito de Expulsão da Espanha, pelos reis católicos, Fernando e Isabel, em 31 de março de 1492. Segundo alguns cronistas da época, aproximadamente 180.000 judeus, não aceitaram o catolicismo como condição de permanência na Espanha e optaram pelo exílio. A grande maioria entrou por Portugal, onde desde a Idade Média, existia uma população judaica. Segundo Novinsky, os judeus que procuraram refúgio em Portugal em 1492 encontravam-se homens de ciência e de alto nível cultural, astrônomos, matemáticos, cartógrafos, médicos, muitos deles fizeram parte da comissão científicos, criada pelo rei D. João II, dedicada aos estudos sobre navegações (NOVINSKY, 1992, p. 07).

O poder econômico dos judeus em Portugal é muito considerável. No entanto a importância desta comunidade não está apenas na riqueza, mas sim nas funções que seus membros desempenham. Os judeus tinham praticamente o monopólio das operações financeiras, como o comércio do dinheiro, a cobrança de rendas do Estado e das casas senhoriais, a administração das alfândegas. Alguns historiadores carregados de preconceitos raciais e anti-semita dizem que os judeus se limitam apenas em atividades usurárias, tais como as negociações financeiras. Segundo SARAIVA, a realidade é outra. Os judeus ibéricos não são apenas intermediários, mas também produtores. Em Portugal são muito frequentes alusões aos ferreiros, alfaiates, sapateiros e outros profissionais judeus. Outra função desempenhada pelos judeus era a intelectual. Eles foram na Península Ibérica os herdeiros da ciência Árabe. Cultivavam a astronomia, astrologia, por muito tempo a tradição médica hebraica permaneceu em Portugal. Existia um setor intelectual caracterizado pelo cultivo das ciências exatas e naturais em face do setor cristão constituído pelo clero mais identificado com as ciências teológicas e literárias (SARAIVA, 1969, pp 29-30).

Em face deles – em parte concorrentes com eles -, há um artesanato cristão e uma burguesia mercantil cristã. Sujeita a leis discriminatórias, impedidos de praticar livremente seu culto religioso, a população judaica não se misturava com a cristã e mantinha a sua pureza religiosa e étnica. Entre o artesanato cristão e o hebraico, entre a burguesia do Tamulde e a do Evangelho, passa uma enorme fronteira. Há vários indícios da rivalidade entre estes dois grupos. Os cristãos exigiam que fossem retirados aos judeus os ofícios públicos, que eles não fossem funcionários da Corte.

Ao longo do século XV, muitos protestos se manifestavam. Exigiam a demissão dos judeus que cobravam impostos para a Coroa, com o argumento que espoliavam o povo cristão. Queixavam-se que o artesanato judeu não deveriam trabalhar foras das judiarias, por que diziam que os artesãos hebraicos, na casa dos cristãos, abusavam de suas mulheres e filhas.

Muita rivalidade e protestos aconteceram por parte da população cristã em Portugal. Alguns historiadores tentaram matizar a situação dos Judeus pelo fato dos mesmos possuírem um poder próprio, que era o do dinheiro, no entanto este poder não tinha lugar reconhecido na ideologia feudal, mas que de certa forma lhes davam uma certa força. No entanto, tais nuances não alteram o fundo da questão, sobretudo no aspecto ideológico, que é o que consideramos.

Em 1492 os judeus espanhóis foram expulsos pelos Reis Católicos Fernando e Isabel, no entanto, uma parte das centenas de milhares de emigrantes forçados sairam pelos portos marítimos, outra parte, pela fronteira portuguesa. o Rei de Portugal não fechou as portas para a população judaica, o que mostra, uma atitude favorável da Coroa perante os fugitivos.

Embora não seja possivel crifrá-lo, o número de judeus espanhóis entrados em Portugal, é certamente muito elevado. Segundo João Lúcio de Azevedo, Abraão Zaucto, refugiado em Portugal. fala de 120.000; Damião de Góis, pertecente à geração seguinte à dos protagonistas destes acontecimentos, refere-se a 20.000 famílias. As duas estimativas não se afastam muito, seja qual for o número preciso, trata-se de uma penetração em massa.

Algo inesperado aconteceu: o Rei D. Manuel, no intuito de se casar com a filha dos Reis Católicos, casamento este que lhe dava a posição de herdeiro do trono de Castela e Aragão, comprometeu-se a expulsar os judeus que viviam  o seu reino. Data de 05 de dezembro de 1946 a lei que ordena a saída dos judeus até o mês de outubro do ano seguinte. Na realidade D. Manuel, não queria expulsar os judeus de Portugal. As medidas que acompanharam esta lei, mostraram que o mesmo estava decidido a evitar que os judeus abandonassem o país.

Segunda SARAIVA, tudo foi feito para dificultar o embarque dos judeus que insistiam em partir. Um único porto lhes foi facultado, o de Lisboa. Segundo alguns cronistas, se juntarem neste porto, cerca de vinte mil famílias vindas de vários pontos de Portugal. Contudo um bando de frades violentaram e lançaram sobre os judeus concentrados nesse porto, a água de  batismo não deixando ninguém partir. A partir deste momento os judeus eram considerados cristãos, portanto suditos da Igreja, e se insistissem na antiga religião, eram considerados apostátas.

Assim, acabaram os judeus em Portugal e nasceram os cristãos-novos. Se não fosse a violência a consciência religiosa desses novos convertidos, diríamos que eles foram enormemente beneficiados com as leis manuelinas. Não só conservaram os seus bens, não só ficaram isentos de pesados impostos, mas passaram, por força da lei, a ocupar todas as posições que eram então reservadas aos cristãos.

2. Introdução da Inquisição em Portugal.

O desaparecimento do judeu como personalidade jurídica, étnica ou religiosa, não implicava automaticamente o desaparecimento do anti-semitismo. Para a gente miúda e oprimida, o judeu era o ponto de fixação de descontentamentos e frustrações de várias origens. O fato do judeu ser frequentemente rico, não alterava em nada a sua situação, pelo  contrário, conferia ao membro da comunidade cristã, um sentimento de nobreza, de uma legitimidade que não dependia de fortuna, algo instrínseco, inalienável e hereditário. O judeu era de algum modo o pedestal que assentava a pirâmide feudal dos privilégios.

O cristão novo, toma o lugar do judeu. Muitas pessoas estimularam e organizaram esta transferência do ódio ao judeu para o cristão novo, todas as ocasiões ou pretextos serviam a demagogia clerical. Os pequenos clerigos, orientavam e doutrinavam os crentes, com quem estavam em contato direto. De fato a sua influencia era muito forte, visto que o povo não conheciam outros letrados, as opiniões dos clerigos, eram como se fossem os intermediários entre a aristrocacia e o restante da população.

Vamos refletir, a conversão forçada de 1497 introduziu no seio da cristandade um grupo numeroso de letrados não-clericais, médicos, farmacêuticos, escribas, negociantes alfabetizados, de quem se podia temer que fizessem concorrência aos clérigos naquela função. Somando-se aos quadros médicos não-clericais já existentes, constituiam um conjunto que ameaçava o monopólio clerical da opinião.

Este setor intelectual leigo estava, pela sua própria orugem, facilmente expostos à acusação de heterodoxia. Alem de que a tradição cultural hebraica, independente da prática religiosa, continua viva para os antigos judeus e seu inumeros descendentes, a própria mudança forçada de religião os preparava para uma atitude tentende ao ceticismo ou a um certo tipo de inconformismo religioso.

Esboçava-se uma rivalidade entre o setor intelectual burguês, laico, rivalidade que perdurará até a época contemporánea. A hierarquia estava ameaçada e a integração dos antigos judeus era um perigo para a sociedade tradicional sobretudo na conjuntura econômica. A nobreza enquanto grupo, estava interessada em no equilibrio social indispensável a hierarquia que ocupava u posição mais privilégiada.

Quais eram as incidências da assimilação dos antigos judeus? Tentaremos tratar agora. Vamos lá.

Existia em Portugal antes da conversão, uma burguesia mercantil judaica separada da cristã, contudo essa burguesia era discriminada ao mesmo tempo uma população de párias e por isso uma posição de inferioridade perante os outros grupos sociais. A abolição das discriminação significava um acesso a uma posição juridica mais forte e a libertação das servidões que até ai a tolhiam. De fato a assimilação dos antigos judeus insere-se num processo de transformação estrutural da sociedade portuguesa a expensas do grupo que se beneficiava da estrutura tradicional.

A abolição da casta de párias ameaçava a sociedade hierarquica no seu conjunto, quer sob aspecto material, quer sob o dos valores ideológicos. Economicamente libertava uma grande parte da burguesia mercantil portuguesa d euma pesada hipoteca. Ideologicamente, um destruía dos pilares da hierarquia dos privilégios.

A Inquisição espanhola. ofereciao ao Rei D. João III, um modelo de soluções naturalmente indicado. Por que estamos falando isso? Os inquisidores eram designados pelos Rei e tinha poderes delegados pelo Papa. representava a criação de novos empregos  e uma nova fonte de recursos a acrescentar aos tradicionais rendimentos feudais. Essa fonte era os bens dos cristãos novos que por via das confiscações iriam alimentar os interesses inquisitoriais. Parece nos que dentro deste conjunto que deve se explicar a iniciativa do Rei D. João III de estabelecer a Inquisição, 35 anos depois da conversão forçada.

Em resumo, o estabelecimento da Inquisição em 1536, se deu para freiar uma burguesia em ascensão cujo núcleo principal era de origem judaica. Essa população colocava em xeque a ordem dominante ameaçando o todo o seu poder.

2 Respostas para “2 – Introdução da Inquisição em Portugal

  1. \o/ ….. vou ler tudinhoOooOoo

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